Acaso Cultural
#14 | Artes visuais: Piedade Grinberg e a curadoria | Culinária: uma receita exclusiva | Microteatro: da Espanha para o mundo
Abre-alas#14
A inauguração de nossa sede totalmente remodelada, em Botafogo, no Rio de Janeiro, já tem data: 25 de outubro. E a ocasião merece ser celebrada. É muita novidade, muitas possibilidades nascendo, muita esperança enfim se tornando palpável. As comunidades artísticas, acadêmicas e o público terão agora um espaço multiuso à disposição para eventos, espetáculos, concertos e gravações, a Sala Acaso, com capacidade de mais de 100 lugares; além do Nonô, restaurante a serviço dos bons encontros e descobertas do sabor.
A hora é de saudar antigos e novos companheiros de jornada, gente que faz a Acaso acontecer e existir. Nessa edição, conversamos com a pesquisadora e professora Piedade Grimberg, agora curadora dos espaços de exposições de nossa sede. Contamos ainda um pouco da história da atriz Alexandra Plubins e suas ligações com o movimento espanhol do Microteatro, e o Chef Jorge Heleno, do Nonô, oferece a receita de um prato exclusivo, criado para celebrar a Acaso.
Com a sede renovada e gana de arte e cultura para todo mundo, todo dia, o tempo todo, vamos ver se juntos a gente não chega aonde quiser.
Seja bem-vindo e bem-vinda, a casa é sua - e está novinha em folha.
Boa leitura!
Alexis Parrott - Editor e redator✅
Encontro com Piedade Grinberg

Com sólida formação em história da arte, Piedade Grinberg foi professora da PUC Rio por 36 anos, muitos deles lecionando no curso de Arquitetura e Urbanismo. Além do magistério, durante 25 anos tomou para si como missão a direção do Solar Grandjean de Montigny, o centro cultural do campus da instituição que se tornou museu universitário, em 2011 - uma bandeira firmemente empunhada por ela.
Curadora de renome e pesquisadora respeitada, ela agora arregaça as mangas para assumir a curadoria de exposições da Acaso Cultural, já às voltas com a organização de editais visando a ocupação dos espaços da sede reservados à exibição de trabalhos de artes visuais. Em conversa com a newsletter, a professora contou um pouco sobre os planos para essa nova fase da Acaso e também dividiu algumas impressões sobre curadoria, arte e artistas.
Partindo da sua experiência, como será a sua gestão à frente da curadoria de arte e do espaço de exposições da Acaso Cultural?
Piedade Grinberg: No Solar Grandjean de Montigny eu tinha que ter um controle, entre aspas, porque em uma casa tombada como aquela todos os riscos têm que ser cobertos. Até brincavam comigo, que eu sempre dizia “não”. “Pode isso?”, e eu dizia “não”, porque era uma responsabilidade enorme, aquela casa era muito frágil. Qualquer coisinha, ela ressente. É uma casa de 1823, que não tem laje entre um andar e outro. Então, isso te dá uma experiência enorme. Na Acaso eu tenho uma pessoa junto comigo, uma artista plástica maravilhosa, Angela Rolim. Ela tem um grupo de gravura já há muitos anos, dá aulas de gravura. É uma pessoa que eu prezo muito e aceitou ser minha parceira.
Há mesmo esse lado mais pragmático da curadoria, é preciso conhecer o espaço que vai ser ocupado e decidir por objetos que sejam pertinentes àquele espaço. Como vocês pretendem equacionar esse problema no caso específico da Acaso?
PG: O espaço no térreo não é grande e já decidimos que vamos ocupar em cima também, na passagem para o teatro, repercutindo a exposição que está embaixo ou fazendo uma dobradinha com assuntos semelhantes, ou outro assunto. De repente, tem uma peça de teatro em cartaz na Sala Acaso, com um tema que seja importante, ou diferente, aí pode ter uma exposição que converse com esse espetáculo. Mas tem determinados trabalhos, ou pinturas, ou até esculturas que não cabem ali. Você gostaria de fazer, mas não cabe, não dá. A gente imagina pequenos formatos que caberiam, colocados em exposição com segurança – da obra, do público, do ambiente. São muitas variáveis. Você não pode ter, de repente, uma escultura ali no meio da sala se as pessoas vão ter que passar. Ou pode ter, talvez, um tótem muito específico, que é importante que as pessoas passem através dele...
Até o esbarrar pode fazer parte da proposta de uma exposição?
PG: Às vezes nem se trata de esbarrar, mas olhar por trás, poder dar a volta. Não se pode encostar a escultura na parede, é evidente; mas, de repente, estrategicamente, você escolhe um local que obriga o espectador a dar a volta.
Como se dá o seu processo de curadoria? Você costuma seguir sempre os mesmos passos ou é o objeto que vai definir o caminho a cada vez?
PG: Às vezes, o artista te convida para fazer a curadoria, te convida para fazer um texto, orientar em uma exposição, isso é um tipo de curadoria. Tem esse caminho, ele quer que você vá ao ateliê, você conversa, às vezes orienta alguma coisa. Não a questão do processo artístico da obra, mas às vezes, de uma colocação diferente... Ou, como a gente pretende fazer na Acaso, receber vários projetos, vários tipos de exposição e analisá-los, se eles são pertinentes, se cabem na casa. Porque tem isso, tem que caber. E o objeto também fala. Eu costumo dizer o seguinte: quando você monta uma exposição, ela precisa “dormir” uns dois dias, para saber se o local a acolhe.
A curadoria é também um processo de criação?
PG: Pode ser, por conta dos textos. É muito difícil você escrever em palavras – que é uma literatura – sobre um sistema que não tem nada a ver com a literatura. É você tentar transformar a imagem ou a pretensão do artista em palavras, você troca o sistema. Por isso que, às vezes, a gente privilegia a palavra do artista, ele falando do seu trabalho. Tem livro de Matisse, ele escrevendo as cartas, dizendo sobre o próprio trabalho. Tem aquelas cartas famosas do Van Gogh ao irmão... Então, isso nos salva, porque é muito difícil você pegar uma obra e transformá-la num outro sistema. É uma outra leitura, é um outro caminho.
Qual a relação entre curadoria e crítica de arte?
PG: Na maioria das vezes, quem faz a curadoria são os críticos de arte ou professores de arte. Eles estão mais preparados para enfrentar – porque a crítica é um enfrentamento à obra de um artista. Na curadoria, muitas vezes, tem muita sutileza, delicadezas, assuntos em que você não pode entrar porque sabe que vai afetar o artista, aquela pessoa com que você está tratando. Então, a crítica de arte anda junto com a curadoria, mas nem sempre. Acho que os curadores mudam, a crítica de arte permanece - ela está em livros, em catálogos, está na escrita. Apesar de que, hoje em dia, a curadoria está muito valorizada, se tornou como se fosse um aval do trabalho do artista. Se o curador é bom, conhecido, aquilo já é um aval, e aí entra a questão de mercado. Se é a exposição de um artista desconhecido, mas com um curador conhecido, em uma galeria também conhecida, esse artista sobe. Ainda que a gente veja a exposição e peça socorro, que alguém nos salve daquilo que estamos vendo.
O tempo é amigo ou inimigo de um curador?
PG: Eu acho que ele é amigo. Porque, se a gente faz as coisas sem pensar, às vezes dá erro. Dá muito erro. Especialmente no trato com o artista, com a pessoa que está levando a exposição, com muita sutileza. Você tem que entender o que aquela exposição representa para o artista. O artista, ou um outro curador, ou quem está apresentando isso. Ele quer o que com aquilo? Mostrar seu trabalho? Quer vender? Quer sair na mídia? Você tem toda essa gama de questões que envolvem o “personagem”, por assim dizer. E que ultrapassam a questão da arte em si. Hoje em dia, a coisa está meio difícil. Muita gente se expondo sem ter o que expor. (AP)✅
Piedade Grinberg indica:
Museu do Pontal (dedicado à arte popular brasileira)
É um trabalho espetacular, apresenta a cultura brasileira, tem atividades para as crianças nos fins de semana, e é uma delícia ir lá. Ensina cultura brasileira, sem fazer uma coisa mais estanque. É quase uma brincadeira, mas as crianças passam a entender que aquilo é só nosso, não tem em outro lugar.
Horários de funcionamento do museu: de quinta a domingo, das 10:00 às 18:00h
Endereço: Av. Célia Ribeiro da Silva Mendes, S/N – Barra da Tijuca, Rio de Janeiro (ao lado do condomínio Alphaville)
Enquanto isso… no Nonô
Frescor, acidez no ponto, equilíbrio e elegância. Com essas características e a pedido da newsletter, o chef Jorge Heleno - do restaurante in-house de nossa sede, o Nonô - criou um prato exclusivo, inspirado na Acaso Cultural e sua vocação para instigar. Assim surgiu o Crepe Acaso, cujo passo a passo da receita você confere abaixo - para reproduzir em casa e se encantar.
Crepe Acaso
Ingredientes:
Massa
90g farinha
20g açúcar
150g leite
2 ovos
Calda
190ml suco de laranja
10ml suco de limão
90g açúcar
45g cointreau
5g essência de baunilha
Porção
Disco de crepe 90g
Abacaxi 31g
Açúcar polvilhado 5g
Calda 25g
Modo de preparo:
- Coloque os ingredientes da calda em uma panela e leve ao fogo médio por volta de 5 minutos, até que engrosse um pouco e o álcool do cointreau evapore. Reserve.
- Bata os ingredientes da massa, despeje em uma tigela e deixe descansar. Esquente uma frigideira em fogo médio e despeje nela metade da massa, até cobrir toda a superfície. Ao surgirem pequenas bolhas, vire o disco com uma espátula para dourar o outro lado também.
- Em seguida, deposite o abacaxi picado sobre metade do disco, ainda na frigideira. Dobre o disco ao meio sobre o recheio e, logo após, dobre mais uma vez, formando um triângulo.
- Coloque o crepe em um prato raso, despeje a calda por cima e polvilhe com o açúcar para servir.
(Rendimento: 2 porções.) ✅
Microteatro: uma história de paixão à primeira vista

Peças teatrais de 15 minutos encenadas em espaços intimistas de até 15 metros quadrados para uma plateia de até 15 pessoas em sessões contínuas durante uma mesma noite. Indo direto ao ponto, podemos definir assim o microteatro, formato criado em 2009 pelo autor e diretor espanhol Miguel Alcantud, em Madri. O impacto da novidade foi tamanho que logo foi aberto um espaço fixo dedicado exclusivamente à novidade, com direito a serviço de bar e cozinha, para propiciar encontros e discussões entre público e artistas no intervalo entre um espetáculo e outro. Hoje, o modelo é uma franquia de sucesso, com casas de microteatro instaladas em 14 cidades na Europa e nas Américas, além de outras experiências baseadas no modelo.
Em 2018, após completar o mestrado em tradução audiovisual em Madri e já morando em Salamanca, a atriz brasileira-espanhola Alexandra Plubins descobriu o microteatro. Foi paixão à primeira vista. Após fazer um curso de contadora de histórias no Centro cultural La Malhablada, cumpriu ali várias temporadas com diferentes obras autorais de microteatro, se engajando definitivamente no movimento. Entre os textos de microteatro assinados por ela, destaca-se a peça sobre a poeta, filósofa e docente de latim Luisa de Medrano (1484-1527), considerada a primeira mulher a lecionar na Europa.
Luisa estreou em dezembro de 2018, ano em que se comemoraram os 800 anos da Universidade de Salamanca. Descobri a personagem através de um amigo que havia estudado lá. Para minha surpresa, ela era (e ainda é) desconhecida pela maioria dos espanhóis. Foi uma pesquisa difícil para elaborar o texto da peça, pois há pouquíssima informação sobre ela. Então, resolvi criar um texto que falasse da sua importância, mas ao mesmo tempo fizesse um paralelo com os dias atuais e levasse o público a refletir sobre o real lugar da mulher hoje, quinhentos anos depois, e se de fato, evoluímos tanto assim como querem nos fazer acreditar.
Alexandra Plubins
Após fazer um curso de formação com os criadores do microteatro, já de volta ao Brasil, Plubins trouxe na bagagem toda a experiência acumulada na Espanha, inclusive com peças escritas e traduzidas por ela, pensadas especificamente para o formato.
Junto à Acaso Cultural, Alexandra Plubins estará oferecendo em breve cursos e oficinas de formação em microteatro, além de apresentações de espetáculos, criando novas oportunidades na cena local e enriquecendo a cadeia criativa do teatro carioca.(AP)✅
Talentos Acaso - edital de música
Se você é cantor ou cantora solo ou faz parte de uma banda, não pode ficar fora desse palco.
A Acaso Cultural reservou todo último domingo do mês para a apresentação de novos talentos da música. Os selecionados ganham espaço para se apresentar na Sala Acaso em um show de 1 hora de duração - com a produção por nossa conta e divulgação em parceria.
As inscrições estão abertas. Preencha o formulário e conte pra gente um pouco da sua história.✅
Rápida e rasteira
Outubro é mesmo o mês das letras. No dia 12 comemora-se o dia nacional da leitura, e no dia 29 o dia nacional do livro - remetendo à data de fundação da Biblioteca Nacional do Brasil, no Rio de Janeiro, em 1810. Para não deixar essas datas passarem despercebidas, que tal uma playlist com canções sobre livros, poesia e leituras? Para ouvir, cantar e pensar entre um capítulo e outro de seu livro favorito.
Cada lugar na sua coisa (Sergio Sampaio)
Best seller (Raul Seixas e Marcelo Nova)
Livros (Caetano Veloso)
Igual-desigual (Fernamda Ca interpreta o poema de Carlos Drummond de Andrade musicado por Marcos Falcão)
Os ilhéus (Zé Miguel Wisnik, baseado em poema de Antonio Cicero)
Estampas Eucalol (Xangai)
Libro de papel (Los autenticos decadentes)
Conspiração dos poetas (Tavinho Moura e Fernando Brant)
Torto arado (Rubel, Liniker e Luedji Luna interpretam canção inspirada no romance de Itamar Vieira Jr.)
Livro aberto (Genival Santos) (AP)✅






E eu achando que não dava pra melhorar…