Acaso Cultural
#15 | Música: entrevista com Fred Martins | a Sala Acaso abre as portas | Agenda: programação completa da inauguração de nossa sede
Abre-alas#15
Falta pouco agora, a contagem regressiva está quase terminando. A inauguração de nossa sede totalmente remodelada, em Botafogo, no Rio de Janeiro, é nesse sábado, 25 de outubro - e todas e todos estão convidados para participar. Nessa edição da newsletter você confere a programação completa dos eventos da nova estreia da Acaso Cultural.
Seja bem-vindo e bem-vinda, a casa é sua. Boa leitura!
Alexis Parrott - Editor e redator✅
O tempo do mundo, mundo afora
Uma conversa ultramarina com o cantor e compositor Fred Martins

O músico niteroiense Fred Martins tem circulado pelo mundo e por inúmeros estilos ao longo de uma carreira premiada: samba, jazz, rock, blues e até o fado e o flamenco. Compositor prolífico, suas canções ganharam os palcos e nossos ouvidos nas vozes de artistas do quilate de Ney Matogrosso, Zélia Duncan, Adriana Calcanhoto e MPB-4. Hoje radicado em Lisboa, Martins amarra experiência e talento em uma discografia autoral composta por 8 álbuns e 2 DVDs.
Ao lado do violoncelista Jacques Morelenbaum, Martins é a atração de estreia da Sala Acaso com um show-tributo a João Gilberto, marcando a inauguração da sede da Acaso Cultural no próximo sábado, dia 25 de outubro. Atento aos sinais, o artista faz da música um verdadeiro laboratório de reflexão sobre as movimentações e desafios de nossa época.
Como é a vida de um músico brasileiro vivendo na Europa há tanto tempo? Como isso vem interferindo no seu trabalho e na visão que você tem do mundo?
FRED MARTINS: Eu estou há 14 anos fora do Brasil, fazendo música a partir da bagagem que trouxe comigo. Então, para mim, o que eu faço é música brasileira. Mas tenho feito outras coisas também. Fiz um disco só de fados em Portugal, com uma fadista, a Joana Amendoeira, compus todas as músicas do álbum. Desde que eu saí do Brasil nós entramos em grandes delírios coletivos. Mas são delírios que vêm de muito tempo, não só desse momento maluco que estamos vivendo agora, de fake news... A gente acredita em coisas que nos contaram e continuamos acreditando. Isso tem em todo lugar, mas no Brasil temos uma maneira muito própria de abraçar essas verdades eternas.
Por que que essas verdades fabricadas se integraram com tanta força ao nosso cotidiano? Como foi que pudemos nos acostumar com isso, a ponto de perder o rumo?
FM: O espaço foi tomado pela lógica do mercado. A máquina ficou muito potente. Acho que até os anos 1970, o artista fazia o trabalho dele e a indústria se ocupava em promover e dar estrutura. Aí começam a aparecer em todo lugar bandas inventadas, tipo Menudo. Bandas que não têm artistas, mas um produtor que teve uma ideia de marketing, fez um casting e entraram pessoas que se encaixavam naquele papel, e toca a vender disco. A máquina funciona assim, não precisa mais daquela cultura que a gente tinha, da canção. (...) Esse mundo acabou, esse bonde a gente perdeu.
Mas você está sempre enfrentando essa questão de alguma forma, dizendo e se colocando no seu trabalho. Nas suas canções, tudo é sempre pessoal e, nesse sentido, acho que o violão fala muito de você. Como é que o violão entrou na sua vida?
FM: Eu acho muito acertado associar o violão ao meu trabalho. Realmente é uma chave de abertura, uma porta de entrada na música para mim, porque a canção sempre me chamou atenção. As canções de rádio, que depois foram para a televisão, esse mundo da canção, as músicas da rua, do carnaval, das festas populares, da umbanda, os sambas de cabula, a música cantada, com letra. Meu pai também gostava de cantores bons, de canções, de melodias, e acho que isso é uma coisa daquela geração, porque meus irmãos também, 10 anos mais velhos, ouviam uma música que tinha melodia. A música tinha que ter melodia, tinha que ter harmonia, alguma coisa que ficasse na memória. Essa música é a expressão popular e a forma da canção, que acho que diz muito da gente; e o violão é o instrumento central da música brasileira. Acho que foi se tornando assim com a bossa nova. Com o João Gilberto principalmente, esse instrumento ganha protagonismo e vira o que é.
Esse apego vem desde a infância, então.
FM: Desde criança, quando eu ouvia alguém tocar me chamava muita atenção. Eu ficava muito ligado, parava o mundo e eu ficava ali, ouvindo. O violão trabalha nas frequências médio e grave, é uma coisa aconchegante. Dentro do fenômeno das frequências musicais, os sons mais agudos são mais penetrantes, às vezes mais agressivos. Mas essas frequências mais graves, e as médias, elas vêm com um certo aconchego. Quando os instrumentos ou a voz querem contar uma história mais tranquila, mais cool, mais intimista, trabalham nessa região, como o violão, que sempre me trouxe esse aconchego, essa coisa doce que ele tem. Principalmente o violão brasileiro, com a corda de nylon; diferente do violão norte-americano, que trabalha com corda de aço, mais agressivo. O nosso violão, principalmente o da Bossa, com o João Gilberto, ganhou essa leveza, uma coisa muito sedutora para mim.
Você fala do violão como se falasse de um companheiro.
FM: Ele é portátil, você leva o violão daqui para ali com facilidade. Ele é muito fácil, ele é acessível, é um instrumento barato e com aquelas seis cordas, você cria todo um universo, diferente do universo da música clássica, erudita, que tem um piano como base - que é um instrumento pesadíssimo, que você precisa de uma estrutura grande, de dinheiro. Tem que afinar, ele desafina toda hora, tem que contratar alguém, é caro... Tem que chamar um especialista, quase como um médico para fazer uma cirurgia. É uma coisa complexa, e o violão não. O violão qualquer um tem e pronto.
E o João Gilberto, como entra nessa equação?
FM: Na adolescência comecei a ouvir rádio para ouvir a música brasileira de uma maneira mais ampla, além dos discos que tinha em casa, e aí descobri o João Gilberto através do Eu vim da Bahia, uma gravação que ele fez nos anos 1970 e fiquei com aquilo na cabeça para sempre. Como uma gravação com tão poucos elementos - uma voz, um violão e uma percussão muito leve - podia ser tão magnética, podia conter tanta potência? Acho que foi aquilo que me fez querer tocar depois e conhecer outras coisas.
Foi dessa curiosidade que nasceu a vontade de estudar? Como foi esse processo?
FM: A gente tinha uma cultura musical muito variada. Se cada bairro do Rio tinha o seu tipo de samba, imagina no Brasil inteiro. E eu sentia que precisava estudar para entender, para dar conta daquilo tudo, eu não podia ficar só de orelhada. Meu professor, Sergio Benevenuto, foi estudar nos Estados Unidos porque no Brasil não tinha escola de música popular. As escolas aqui eram todas voltadas para a música erudita, ensinando Mozart, Beethoven, não podia entrar nem Tom Jobim. Aí ele volta da Berklee com a formatação do estudo do jazz, e a gente começou a usar isso na música brasileira, de forma incipiente ainda. Depois veio o trabalho nos Songbooks, uma grande sacada do Almir Chediak, que trouxe dos Estados Unidos a ideia, lá isso era comum. Até então não existia essa preocupação de passar para a partitura a nossa música popular. Fiquei anos fazendo esse trabalho, aprendi muito ali também.
Além do violão, outras chaves para compreender o seu fazer musical são as parcerias e, tematicamente, o tempo - que surge em inúmeras canções, como Tempo afora, Depressa a vida passa, Novamente ou Poema velho, entre outras. Você concorda?
FM: As parcerias são muito importantes, ninguém faz nada sozinho. É necessário uma equipe, um monte de gente para montar um show ou gravar um disco, por exemplo. Eu nunca gostei daquela imagem do artista solitário, sofrendo para criar. Acho que o diálogo é importante para a criação e tenho a sorte de ter encontrado parceiros incríveis, como o Marcelo Diniz, que é um poeta espetacular. Cito apenas o nome dele porque é o parceiro com quem mais trabalhei até hoje, mas há muitos outros. Já a questão do tempo como tema das minhas canções, acho que estou sempre pensando é no nosso fim, na morte mesmo. Sabemos que a vida tem uma duração restrita, é algo que começa e vai acabar. Como dar sentido a esse tempo, enquanto ele corre?
Você respeita a música, acredita na sofisticação melódica e na harmonia, mas ao mesmo tempo está sempre louvando as tradições da cultura popular, quer seja nas letras, quer seja nos temas das canções. A vontade de unir essas duas pontas, o erudito e o popular, é algo pensado? Ou é tudo a mesma coisa, é tudo cultura?
FM: No fundo eu acho que tudo é cultura, não há valores em si melhores que outros. A cultura greco-romana que a gente herda da Europa é tão valiosa quanto a base africana e indígena que nós temos, que é riquíssima, milenar cheia de saberes e ciências próprias. Infelizmente, a gente ainda vive em uma era imperialista, colonialista, não dá para apagar isso. Eu nasci do lado de quem se fode, meu pai era muito pobre, meu avô era carteiro, minha avó veio do mato, era cozinheira, cabocla, meio preta, meio índia, do povo, sem grana, ao Deus-dará, como a maioria vive no Brasil. Mas com essa riqueza toda, que vem de dentro. Essa hierarquização tem que ser derrubada. Eu nasci e cresci nesse meio, onde essa riqueza cultural está em todo lugar, está nas pessoas, na forma delas festejarem, delas terem sua religiosidade e convívio. Essa riqueza está em tudo no Brasil.
E como é que um cara tão ligado no Brasil acabou optando por viver na Europa?
FM: Não foi um plano, aconteceu. Eu vivia no circuito independente, entre Rio-Niterói e São Paulo, muito estressado, porque o espaço é restrito, sempre cheio de dificuldades. Em 2009, recebi um convite para tocar na Europa, acabei fazendo muito mais concertos do que o programado, e fui ficando - primeiro na Espanha, depois em Portugal. Acho que a herança europeia, ibérica principalmente, está muito presente na nossa cultura, na música isso é muito evidente. Poder viver e trabalhar isso, criar esses laços, fazendo trabalhos com pessoas daqui, é muito interessante. Ajuda também a explicar e entender o que somos, como chegamos até aqui. Nunca me desliguei do Brasil, das questões do Brasil. Meu trabalho é uma forma de esclarecer, iluminar e pensar sobre tudo que nos forma. Mesmo estando aqui há tanto tempo, acho que nunca saí do Brasil, estou sempre trabalhando pra gente. (AP)✅
Programação de inauguração
Sala Acaso
Evento de estreia
SESSÃO EXTRA: 01 de NOVEMBRO | sábado | 20h
Tributo a João Gilberto - com Fred Martins e Jacques Morelenbaum
O repertório inclui clássicos de Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Chico Buarque, Carlos Lyra, Dorival Caymmi e Geraldo Pereira eternizados na voz e no violão de João Gilberto.
26 de OUTUBRO | domingo | 17h
Entrada franca
Roda de samba com o sambista Jorge Maia e o violonista Fábio Nin
Participação especial da Orquestra Johann Sebastian Rio e outros convidados.
30 de OUTUBRO | quinta | 20h
Camerata de Violões em concerto
Formada por oito músicos com violões de 6, 7 e 8 cordas e repertório com ênfase na música brasileira, de Ernesto Nazareth e Villa-Lobos a Garoto e Hermeto Paschoal.
31 de OUTUBRO | sexta | 20h
Johann Sebastian Rio Orquestra
Sob a batuta do maestro Felipe Prazeres, a versátil orquestra vai de Bach a Ben Jor para homenagear o compositor alemão e reverenciar o Rio de Janeiro de São Sebastião.
Microteatro
(coordenação de Alexandra Plubins)
24 de outubro | sexta | 19:30h
ENSAIO ABERTO - preço promocional de $20 reais por peça
Sempre às sextas e sábados
[Cada sessão dura 15 minutos - é possível assistir a até 3 peças na mesma noite]
Sala 1 - Uma casa para Celeste
com Hugo Bonèmer - sessões às 19:30h | 20h | 20:45 - [estreia 07 de novembro]
Sala 2 - A virada
com Isabella Dionísio e Alexandre Vollú - sessões às 19:40h | 20:10h | 20:55h
Sala 3 - Luisa de Medrano
com Alexandra Plubins - sessões às 19:50h | 20:20h | 21:05h
Artes - Exposições
[Entrada franca - de terça a domingo | das 14h às 22h]
Minha gente de barro - de Pipsi Munk [até 07 de dezembro]
Tempo possível - de Marcelo Celeste
Cursos e Clubes
Rodas Literárias – Clube de leitura
sábados | de 11h às 13h | informações e inscrições
Chat Fact - Conversação em inglês
sábados | de 11h às 13h | informações e inscrições
Filosofalas - Conversas sobre filosofia
terças (quinzenal) | de 19h às 21h | informações e inscrições
Moldando mundos - Modelagem em argila para crianças
terças | de 18:15h às 19:45h | informações e inscrições
Descobrindo o teatro - Artes cênicas para o público infantil
15 e 16 de novembro | de 10h às 12h | informações e inscrições
Outras informações:
acasocultural@gmail.com
Venha nos conhecer, estamos na Rua Vicente de Sousa 16, Botafogo, Rio
Enquanto isso… na Sala Acaso
Marcus Watson e Carlos Roberto Pedruzzi trabalham juntos há 15 anos na área de projetos e consultoria de áudio. O primeiro é o responsável pela acústica (isolamento e condicionamento) dos espaços a serem trabalhados e o último se encarrega dos sistemas de sonorização. A dupla assina o projeto de controle eletroacústico da Sala Acaso, espaço multiuso da Acaso Cultural, cuja inauguração acontece no próximo dia 25, quando Fred Martins e Jacques Morelenbaum apresentam um show-tributo a João Gilberto.
As generosas dimensões da Sala (6,40m de pé direito, 7,70m de largura e 12m de profundidade) permitem a ocupação de uma plateia em torno de 100 lugares para a audiência de shows e concertos musicais, espetáculos de teatro ou mesmo eventos acadêmicos. A partir do projeto desenvolvido pela dupla, com piso flutuante e as paredes revestidas com lambris de fibra de coco, a Sala pode ainda ser utilizada como estúdio de gravações de áudio e imagens, completando o leque de possibilidades com que ela foi pensada originalmente.
Com formação em engenharia de telecomunicações, Pedruzzi sempre teve um pé na engenharia e outro na música e entrou para o mundo da sonorização pelas mãos do produtor musical Mayrton Bahia, amigo de longa data que o levou para um curso ministrado pelo arquiteto e engenheiro acústico francês Claude Venet, no estúdio do lendário Chico Batera, no Rio. Por mais específico que seja o seu trabalho, ele explica de forma direta o sentido da sonorização: oferecer ao público uma experiência o mais uniforme possível. Que alguém na última fila receba a mesma qualidade de áudio que a turma sentada junto ao palco.
Para definir a ocupação interna da Sala, o interior da “caixa cênica”, foram convocados os arquitetos Ingrid Colares e Antonio Machado, com participação de Camila Mainer, com a missão de criar uma sala de espetáculos que não tivesse uma configuração única, mas que fosse polivalente e adaptável a diferentes situações.
Desde o início, trabalhamos nessa mediação entre as escalas da arquitetura e da cenografia, entendendo as soluções não apenas como suporte para os espetáculos, mas como parte criadora da própria cena. O resultado é uma sala que muda junto com a programação. Pode assumir a configuração de plateia clássica voltada para o palco, palco no chão em mesmo nível da plateia, palco central em arena, eventos em pé com tudo recolhido nas bordas ou até uma roda de samba em que os praticáveis se transformam em mesas para os músicos. Em resumo, um espaço vivo, que se adapta a cada montagem.
Ingrid Colares, arquiteta
Preparada com esse cuidado e embalada no espírito do movimento e da versatilidade é que a Sala Acaso abre as portas. (AP)✅







